segunda-feira, 27 de abril de 2015

Memória

Cada um de nós é . Ser só por si , é sermos nós . Termo-nos como um conceito que é nosso , é superar a expectativa . Inventarmos um conceito novo para nós é lembrar-mos tudo o que vivemos e resumi-lo a um sentimento .

Se se tentarem lembrar da vossa memória mais antiga , nunca chega perto do primeiro momento em que este mundo vos começa a consumir . O nosso primeiro suspiro , qualquer que seja a perspectiva , é menos um suspiro . Já estamos a absorver tudo o que pudemos e a criar alguém . Só por si , esse momento de existência insignificante , já é . Já estamos a tentar , com o pouco que vimos , perceber tudo e guardar o máximo que pudemos . Neste momento , não estamos conscientes de que estamos a ser . Ser e limitarmo-nos a isso , simplesmente ser . Sem preocupações , sem futuro e sem passado . Estamos a ser o momento . 

Depois de algum tempo , quando já criámos alguém  e tomamos consciência disso ,  parece que acordámos . Um segundo antes não era mais do que um vazio em  que estávamos submersos . A minha memória mais antiga , tinha eu quatro anos , estava frente a frente com um móvel a ir buscar um copo de água para brindar o ano novo . Antes disso , não tenho memória de realidade alguma . Por mais histórias que me contem do dia anterior , ou de quando eu tinha três anos e fui dormir para o carro , não é mais do que um vazio imenso , não é mais do que toda uma aprendizagem . Não estava pronto , antes desse momento ainda não tinha aquilo que precisava para conseguir vingar nesta vida que é tão minha . Tinha que perceber qual o meu conceito , o meu objectivo , o meu ideal mais cru e animal . O meu grande objectivo sempre foi ter asas e puder voar o mais alto que conseguir , acima das nuvens , acima da terra , acima do céu , sem limites ! Apenas sentir que se há um destino , sou eu que o vou comandar . São as duas únicas coisas que se guarda durante uma vida , os nossos primeiros medos e os nossos sonhos mais profundos . As duas únicas coisas em que é difícil deixarmos de acreditar , mesmo com todas as certezas que nos possam ser dadas . 

Aquilo que ainda não  sei , é o momento em que tenho todo o conhecimento de uma vida , o expoente máximo da sapiência de cada um . Como nesse momento consigo pensar em tudo o que passei , toda a gente que conheci e me acompanhou durante a construção de alguém que é tão indefinido . Todas as pessoas que tomaram conta de mim no infantário , todos os amigos que lá fiz e já seguiram o seu caminho . Todas a pessoas que me ensinaram a ser o "salvador da Pátria " no recreio na minha escola primária .Todas as vezes que fui para a praia do norte e tinha lá os amigos mais fiéis , que ainda hoje são família  . Quando aprendi que a vida também pode ter céus cinzentos , mas que os amigos estão sempre ao virar da esquina para ajudar . Aquilo que cresci , quando mudei de escola sozinho , para um sítio só com pessoas que nunca tinha visto , mas que me ensinaram que a independência e vontade própria são algo muito importante . O abrir de olhos e horizontes que foi ter estado uma semana , no meio de valada do Ribatejo , com pessoas que pensavam da mesma maneira que eu , cantavam com a mesma alegria que eu e não tinham vergonha de cantar para todos . Pessoas que me ajudaram a crescer , a viver o mundo como eu o vejo e a escolher as coisas por mim . O momento em que passei a ser um rapaz do décimo ano e que tinha que fazer escolhas . O momento em que fiz os melhores amigos de uma vida .

 Todos os momentos que ainda vou viver , tudo aquilo que vou aprender . Tudo se vai resumir a um momento , com estes vários momentos . O segundo em que tudo isto está na minha cabeça de uma vez só , o segundo em que tudo isto se transformar num só sentimento e que não tenho mais nada para aprender  , o segundo em que foi construído alguém que inventou um conceito para se lembrar de tudo aquilo que viveu . Um conceito para exprimir a felicidade de viver . Inventar um  conceito para no segundo a seguir , morrer .